Como homossexual concorrendo à Câmara dos Vereadores de Houston, que já tem uma prefeita lésbica, Josh Verde achou que não teria problemas em conversar com os eleitores sobre sua sexualidade. Aí ele veio para esta conferência de treinamento para candidatos abertamente homossexuais, e prontamente errou suas falas.
“Tenho um namorado”, anunciou Verde durante um ensaio de entrevista com um consultor de campanha fazendo as vezes de repórter. No mesmo instante, arrependeu-se das palavras. “Soou muito estudantil”, disse ele, mais tarde, corrigindo-se para “estou em um relacionamento”.
Verde, estudante de direito de 31 anos e consultor de aviação, foi um de quase três dúzias de candidatos abertamente homossexuais que participaram de um curso rápido em estratégia de campanha no último final de semana em um salão de hotel. Organizado pelo Gay and Lesbian Victory Fund, que trabalha para eleger homens e mulheres homossexuais dos dois partidos, a conferência de três dias ofereceu claras evidências de como os políticos homossexuais avançaram –e como esse avanço foi rápido.
Trinta e cinco anos após Harvey Milk capturar a atenção dos EUA em San Francisco como político abertamente gay, mudanças dramáticas na opinião pública estão levando gays, lésbicas, bissexuais e transexuais a se candidatarem e conquistarem cargos eletivos como nunca. A tendência produziu uma série de questionamentos para candidatos gays como Verde, que se sentem confortáveis falando sobre sua sexualidade –e querem que os eleitores também se sintam confortáveis.
Aqui em Pittsburgh, onde dentre os candidatos havia uma mini-celebridade –Daniel Hernandez, estagiário do congresso de 21 anos que ajudou a salvar a vida da deputada Gabrielle Giffords quando ela foi alvejada no Arizona- uma equipe de estrategistas ensinou aos participantes detalhes da condução de uma campanha, inclusive o desenvolvimento de uma mensagem e a contratação de uma equipe.
Eles falaram de questões como a importância de bater de porta em porta (“uma forma de quebrar o gelo é ser apresentado”, aconselhou Joe Fuld, estrategista dirigindo a conferência), quanto dinheiro precisam angariar (o dobro do que candidatos heterossexuais, disse Fuld) e que tipo de fotografias usar nos panfletos de campanha.
“É sempre a família, os filhos”, lamentou um candidato. “Se você for homossexual solteiro, coloca uma foto com o cachorro?”
O fato de políticos gays estarem tendo esse tipo de discussão é significativo em si mesmo. Há pouco tempo, autoridades eleitas como o deputado Barney Frank, Democrata de Massachussets, não declaravam sua homossexualidade; Frank não se abriu até 1987, sete anos após conquistar seu assento na Câmara. Hoje, na Câmara, há quatro membros abertamente gays e a ideia é bater os recordes.
Em Houston, a prefeita Annise D. Parker, eleita em 2009, está concorrendo ao segundo mandato. Em Nova York, Christine C. Quinn, presidente da Câmara dos Vereadores, está na lista de candidatos potenciais do Partido Democrata para a prefeitura. Em Washington, a deputada Tammy Baldwin, democrata de Wisconsin, estaria considerando disputar uma vaga no Senado, uma perspectiva que criou um alvoroço entre os que anseiam pelo primeiro membro do Senado abertamente homossexual eleito.
Usando o modelo do Emily’s List, um comitê de ação política focado na eleição de mulheres democratas, o fundo, com um orçamento de mais de US$ 5 milhões (em torno de R$ 8 milhões) angariado na maior parte entre colaboradores gays, é uma força poderosa por trás da tendência, levantando dinheiro, fornecendo conselhos estratégicos e endossando candidatos como Baldwin, uma de suas estrelas.
Em 1991, o ano em que foi criado, o fundo endossou dois candidatos. No ano passado, endossou 164. O fundo também ajuda políticos eleitos que não assumiram sua homossexualidade a se revelarem e, por meio de seu Instituto de Gays e Lésbicas, administra conferências de treinamento como a de Pittsburgh várias vezes por ano.
A ideia, disse Chuck Wolfe, presidente do fundo e diretor executivo, é construir um “banco” de políticos que possam se eleger no nível local e daí subirem. Por todo o país, somente cinco políticos estaduais são abertamente gays. Wolfe disse que acredita que os eleitores norte-americanos aceitariam um candidato gay à presidência, apesar de achar que serão precisos outros 20 anos para produzir um candidato forte.
“Poderia ser progressista, poderia ser conservador”, disse ele. “Não tenho previsões sobre que tipo de background teria.”
Os participantes da convenção em Pittsburgh vê de todo o espectro político, desde Marisa Richmond, historiadora transexual de 52 anos que faz parte do comitê executivo do Partido Democrata do condado em Nashville, Tennessee, até Seth Kaufer, gastroenterologista de 31 anos concorrendo a líder republicano de repartição na Filadélfia. (“Acho que é uma qualidade”, disse ele de ser republicano gay. “Gosto de quebrar estereótipos”.)
A maior parte, porém, era de jovens democratas. Hernandez, hoje estudante da Universidade do Arizona, está de olho em uma vaga no conselho da faculdade.
John Campbell, 23, está prestes a se tornar o novo tesoureiro da cidade em Harrisburg, Pensilvânia; ele levantou US$ 10.000 para derrotar um oponente nas primárias democratas de 58 anos no mês passado e está concorrendo sozinho às eleições gerais.
Campbell disse que o treinamento –particularmente o lapso de Verde- se encaixava com sua própria experiência em campanha, onde se viu fazendo mudanças sutis em sua fala e aparência. Ele abandonou seu jeans Guess justo por calças mais largas, para evitar parecer um frequentador de boates. E ele “fez um esforço muito consciente” para usar a palavra parceiro ao descrever seu companheiro.
“As pessoas acham isso mais válido do que namorado”, disse ele.
Hoje em dia, 62% dos norte-americanos dizem que a orientação sexual não importa para eles, ou seja, 51% a mais do que quatro anos atrás, de acordo com uma pesquisa publicada na semana passada pelo Centro de Pesqusia Pew. Dos 500.000 políticos eleitos nos EUA, 495 são abertamente gays, subindo de 49 há 20 anos atrás, de acordo com o Gay and Lesbian Victory Fund.
Apesar do aumento na aceitação pública, os obstáculos permanecem. Bruce Kraus, membro gay do Conselho da Prefeitura de Pittsburgh, contou aos participantes sobre um episódio em que jogaram tijolos na janela do escritório da sua campanha, há dois anos. Ofensas foram pichadas em alguns de seus cartazes e textos homofóbicos foram distribuídos em igrejas católicas, disse Kraus.
Ainda assim, disse ele, “está infinitamente melhor, e a prova cabal é que estou em um cargo público”.
Fuld, cuja empresa, The Campaign Workshop, presta consultoria a candidatos homossexuais, disse que seus clientes muitas vezes descrevem a campanha como reviver “a experiência de assumir” a sexualidade. Ele deu aos participantes uma lista de 13 perguntas que devem estar preparados a responder, inclusive: “Há quanto tempo você é gay?” e “há quanto tempo sua família sabe?” Quando um candidato perguntou como descrever sua sexualidade no texto da campanha, Fuld apontou para Parker em Houston.
“Ela colocou no material que era liason do GLS. “Você precisa deixar isso claro de alguma forma, mas não precisa ser ‘João, o Candidato Gay’”.

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